Qual a diferença — e as semelhanças — entre Tai Chi Chuan, Chi Kung e Meditação Taoísta?
Mensagem recebida de uma pessoa interessada no aprendizado das práticas taoístas, desejando entender melhor que prática escolher e com que objetivos, e a minha resposta (revista e ampliada).
Como o Mestre Liu Pai Lin formou seus professores?
Algumas pessoas, interessadas em formar-se professores ou professoras de Tai Chi Pai Lin, tem se mostrado frustradas ao saberem que não ofereço um curso específico para esse fim.
Meu Mestre tampouco o oferecia, e no entanto...
Tai Chi Chuan, Chi Kung e Meditação Taoísta

Olá caro Professor Antonio,

Estou interessado em iniciar atividades, e no entanto tenho muito interesse também em aprender os conceitos e direções destas manifestações e práticas.
Gostaria de já ir sanando algumas dúvidas; assim que tiver tempo, agradeço se puder me orientar quanto às questões abaixo.
O Tai Chi Chuan, o Chi Kung (Qi Gong) e a meditação Tao são todos "dentro" da mesma linha filosófica, porém sendo diferentes práticas para propósitos específicos?
Na prática da Meditação: quais os propósitos básicos e quais seus principais aspectos filosóficos?
Referente a estes conhecimentos chineses, qual deles trata (mais) da evolução ‘espiritual’ [...]?
                              
Obrigado pelo seu tempo e atenção,                             
R. L.

Caro R.,

Obrigado pela sua mensagem e pelo seu interesse nas práticas taoístas.

A primeira coisa que preciso lhe dizer é que a forma de ensinar do meu Mestre Liu Pai Lin sempre foi tanto teórica quanto prática, filosófica bem como corporal-energética, e eu estou seguindo com a maior fidelidade de que sou capaz o seu exemplo. Nas suas aulas de Tai Chi, de espada Tai Chi, de Pa Kua, ele sempre utilizava um tempo para explicar os conceitos da filosofia taoísta que embasavam as práticas que estivéssemos treinando, ou para, simplesmente, responder às perguntas que os alunos faziam, e logo comentava: — Eu falo, apesar que falar me cansa muito, porque entendendo o que estamos fazendo vocês vão ter mais motivação para treinar...

E, nas suas aulas sobre o I Ching, o Tao Te Ching de Lao Tsé, a meditação taoísta ou os princípios da medicina tradicional chinesa, ele sempre abria espaço para ensinar e conduzir a prática de algum treinamento, especialmente os mais internos, de energia, do repertório do Chi Kung e do Tao Yin, a alquimia interna taoísta. E dizia: — Os taoístas verdadeiros não são literatos, não são eruditos, são treinadores da energia... Leram os livros, conhecem a filosofia, mas vivem treinando, por isso tem saúde e longa vida, senão morreriam jovens e doentes, não seriam verdadeiros taoístas...

Para esclarecer as peculiaridades das diferentes práticas taoístas e seus propósitos específicos, Mestre Liu gostava de dizer: — O Tao é um tripé, uma metáfora muito clara e forte, pois um tripé não pode prescindir de nenhuma das suas três pernas; com essa expressão ele já deixava claro que não há verdadeiro taoísmo nem verdadeiro taoísta se todos os três grandes aspectos da tradição — os três pés do tripé — não estiverem presentes na sua compreensão e na sua prática diária.

A primeira perna é o cultivo da serenidade e a busca da iluminação, através da prática da meditação taoísta, o Tao Yin ou sentar na calma. O propósito inicial da meditação é alcançar a serenidade, sem a qual não há fluxo natural de energia no corpo, a saúde não se mantém e a longa vida não é possível. Mas a sua prática regular ao longo do tempo vai elevando o praticante a níveis progressivamente mais avançados de espiritualidade, à medida que os centros e canais de energia do seu corpo vão se abrindo e interligando, e o seu espírito vai serenando e se tornando cada vez mais límpido e receptivo aos desígnios do Céu; por isso, o propósito final da meditação é a busca da iluminação, a realização espiritual.

A segunda perna é a busca da saúde e da longa vida, através do entendimento dos princípios da medicina tradicional chinesa e da sua aplicação na vida cotidiana. Seguir esses princípios, sistematizados pelas linhagens de sábios da tradição taoísta, é viver de acordo com o Tao, isto é, com moderação nos hábitos pessoais — seguindo uma dieta saudável, sabendo escolher os melhores horários para as diversas atividades do dia, cultivando a ausência de cobiça pelos bens materiais, optando por uma vida mais simples, buscando a harmonia, o respeito, a consideração e a amabilidade nos relacionamentos, e cuidando da própria energia vital — através das práticas como o Chi Kung, que nos ensinam a preservar e renovar nossa vitalidade, expelindo a energia turva presente no corpo e captando as energias límpidas da natureza.

A terceira perna é o treino do movimento, a busca da agilidade e da flexibilidade naturais e duradouras, com a prática do Tai Chi Chuan de raiz taoísta, que nossa escola chama Tai Chi Pai Lin — uma forma de treinamento tanto do corpo físico quanto do corpo energético, que por ser leve, suave, lenta, interiorizada, e voltada à preservação, ao cultivo e à circulação da energia, não se afasta nem se descuida jamais das outras pernas do tripé.

Uma mesma filosofia embasa as práticas e cada um dos corpos de conhecimentos de cada uma das três pernas: a compreensão de que nossa vida tanto física quanto espiritual é fruto das energias yin e yang e do seu relacionamento e interpenetração.

Tendo essa compreensão, através dos treinamentos taoístas religamos, reunimos, fazemos interagir e mantemos unidos yin e yang, isto é, o ventre e os pés com a cabeça e o coração, serenidade e movimento, intuição e razão, corpo e espírito, feminino interno e masculino interno, e assim por diante. O grande Mestre Liu Pei Zhung, o último dos mestres do Mestre Liu, gostava de sintetizar tudo isso dizendo: — Yin e yang feitos um, isso é o Tao!

Por outro lado, no Tao Te Ching, o Mestre Lao Tsé nos diz que “O um gera o dois, o dois gera o três, o três gera as dez mil coisas”. Em outras palavras, yin e yang, gerados a partir da unidade primordial do Tao, gerarão, por sua vez, os três tesouros, e a interação e a troca permanentes de energia entre eles gerarão todas as criaturas.

No nível maior, macrocósmico, esse intercâmbio energético ocorre entre o sol, a lua e as estrelas, os três tesouros do Céu; e, da mesma forma, entre o fogo, a água e o vento, os três tesouros da Terra. No nível menor, microcósmico — no interior dos nossos corpos físicos e sutis — o Tao nos ensina a promover, através dos treinamentos, essa mesma união e fecundação mútua entre os três tesouros do homem: o espírito, Xan [Shen], que habita nossa cavidade ancestral no interior da cabeça, a energia, Tchi [Qi], que habita o centro do peito, e a essência, Tchin [Jing], que habita o centro do baixo ventre.

Por ora, posso oferecer-lhe estas considerações preliminares acerca das suas indagações. Mais que isso, prefiro que você venha ouvir pessoalmente nas minhas aulas, a par com o seu aprendizado e desenvolvimento nas práticas, senão eu estaria deixando de ser taoísta — estaria deixando-me levar pela curiosidade do seu intelecto, antes que você esteja fazendo o seu corpo e a sua energia, seu coração e sua vitalidade, avançarem junto com ele... [...]





Aprendendo a Ensinar

Nos seus 25 anos de trabalho intenso no Brasil, Mestre Liu Pai Lin nunca lançou um curso específico de formação de professores. Formou-os incansavelmente, no entanto, dos seus primeiros tempos entre nós até seus últimos dias de vida. Como o fazia? Simplesmente disponibilizava a todos suas aulas de Tai Chi Pai Lin, e vínhamos aprender.

Mas... como nos transformava de alunos em professores? Acendendo nos nossos corações o amor pelo treinamento do Tao, pelo cultivo da energia vital, pela prática diária: “O segredo do Tai Chi é a prática diária”, dizia.

Porém não só nos ensinava a cultivar a agilidade e a flexibilidade através do Tai Chi, do Tai Chi Espada e do Pa Kua Tsan; afirmava sempre: “O Tai Chi é uma filosofia de vida”, e alimentava-nos, paralelamente, com a filosofia do Tao, transmitindo-nos o entendimento do Tao Te Ching, dos princípios da medicina e do Livro das Mutações — o I Ching,  tal como as técnicas do Chi Kung, da massagem terapêutica Tui Ná, e os treinamentos da alquimia interna — a meditação Tao Yin. Abria espaço nas aulas de Tai Chi para falar sobre os temas mais filosóficos, e oferecia-nos aulas específicas sobre eles, abertas a todos. Explicava que precisava falar muito, sobre os diferentes aspectos da tradição do Tao, pois era entendendo os porquês das práticas que teríamos a determinação necessária para treinar.

O resultado do seu amoroso empenho era que de fato nos apaixonávamos pelo que ensinava, ao sentirmos o treinamento soltando nossos corpos, esvaziando e serenando nossos corações e mentes, transformando nossa energia, fazendo abrir-se, elevar-se e tornar-se mais sábio nosso espírito. A paixão nos fazia praticantes ainda mais dedicados, a dedicação crescente nos trazia benefícios ainda maiores.

Quando lhe perguntavam como saber quem já estava apto a ensinar, e a ensinar o que, o Mestre respondia apenas: “aquilo que você já treina, e já sente os benefícios do treinamento, você já pode ensinar...”. Era assim que muito naturalmente começávamos a ensinar, conforme as oportunidades surgiam: um grupo crescia e o professor responsável convidava um aluno mais adiantado para ajudá-lo, como seu assistente; ou as pessoas pediam ao Mestre alguém para dar aulas nalgum lugar, nenhum professor estava disponível, um novo professor era indicado.

Mas o Mestre também muitas vezes nos exortava a começar a dar aulas, argumentando que era muito importante, para cada um de nós, comprometer-se com um grupo de alunos, para termos mais disciplina e constância no nosso próprio treinamento. Uma vez ouvi-o dizer a um antigo aluno que o procurara para uma  consulta, preocupado com um problema no corpo, depois de vários anos afastado dos treinamentos: “Você precisa dar aula de Tai Chi todo dia, todo dia...”.

E ao ver-nos ensinando o que já sabíamos, e continuando a freqüentar suas aulas, buscando uma formação mais segura, passava a tratar-nos com uma proximidade maior, com mais carinho, e já não cobrava suas consultas, quando o procurávamos para diagnosticar algum desequilíbrio, ou dar-nos alguma orientação pessoal: promovia-nos a discípulos, antes mesmo de qualquer iniciação formal, chamava-nos sementes taoístas — futuras árvores do Tao destinadas a formar outras tantas sementes no futuro.

O hexagrama número 17 do I ChingSeguir — pode ajudar-nos a entender melhor a atitude correta no caminho da formação taoísta. Os trigramas que o compõem o Lago em cima, representando serenidade, alegria, e o Trovão embaixo, representando movimento, renovação — nos mostram uma postura externa leve, serena e alegre, aflorando naturalmente, no exterior, como expressão visível do trabalho permanente de autoexame e transformação no interior.

O texto desse hexagrama nos diz:
"Seguir é prosseguir com alegria, ou acompanhar. Como se pode influenciar o povo a seguir? [...] Apenas por meio da humildade pode-se atrair seguidores. Quando alguém quer liderar, primeiro deve aprender a ser liderado. Assim, haverá progresso e êxito" (I Ching, Edição Completa, Alfred Huang, Martins Fontes Editora, primeira edição, pgs. 162, 163).

Essas palavras iluminam com clareza as duas faces do método natural de formação de professores usado pelo Mestre,  com que ele formou a mim e aos meus irmãos e irmãs de treinamento. A quem ensina, Seguir sugere que sejamos receptivos — humildes — para saber sentir o que cada candidato ou candidata a professor necessita para ir se formando. As pessoas que nos procuram trazem seus dons e bloqueios peculiares, e estão em momentos distintos da sua evolução: não se pode oferecer somente um pacote pronto para todos; “aprender a ser liderado” pelos alunos é adaptar-se ao seu momento, às suas necessidades, oferecendo-lhes o que precisam.

Ao candidato, Seguir também sugere que seja humilde, pois “primeiro deve aprender a ser liderado”: o ponto de partida da sua formação como futuro professor de Tai Chi Pai Lin só pode ser, muito simplesmente, vir aprendê-lo como aluno.