Entrevista ao Guia Lótus, de Brasília, 2003

Entrevista concedida via e-mail ao Guia Lótus (Guia Holístico e Cultural) de Brasília,
publicada em parte na sua edição de março de 2003 (ano 13, número 147), em
preparação a uma série de seminários com o tema O I Ching Taoísta no Distrito
Federal.

• O I Ching e o taoísmo são típicos produtos da mente oriental – seu uso requer disponibilidade para a interiorização, para o autoconhecimento. É possível a uma pessoa que cresceu em meio ao ritmo acelerado da moderna cultura ocidental abraçar o I Ching ou o taoísmo sem antes estar disposta a uma profunda revisão de seus valores?


Mesmo uma pessoa que tenha sempre vivido da forma mais ocidental possível, ao ter contato com o I Ching ou com a transmissão verdadeira taoísta pode se identificar, e então vai querer seguir o caminho. É uma questão de espiritualidade!

Em 73 minha experiência espiritual consciente se limitava a um ano e meio de prática de Hatha Yoga, mas a primeira resposta do I Ching me fascinou tanto pela sua profundidade que fui logo comprar meu exemplar da tradução do Wilhelm para o inglês.

O primeiro contato com o Tai Chi taoísta também é freqüentemente fascinante, como foi comigo em 86... Com o tempo, para se aprofundar nas práticas, pode ser necessário revisar alguns valores culturais; mas o normal é que isso aconteça gradualmente, naturalmente, à medida que incorporamos os treinamentos da Tradição à nossa vida diária.


• Como você avalia a influência dos estudos que Carl Jung fez sobre as técnicas oraculares e a sincronicidade? Esses conceitos facilitam o acesso do ocidental a instrumentos como o I Ching ou será que acabam moldando uma visão limitada do potencial que o livro chinês guarda?

O grande mérito de Jung quanto ao I Ching foi o de formular uma justificativa clara e elegante – a sincronicidade – que inspirou confiança aos ocidentais de formação racionalista no uso dos oráculos. Ajudou a arrebentar a camisa de força da visão de mundo cientificista...

A maior limitação da visão de Jung é que ele se limitou ao I Ching enquanto oráculo. Os símbolos do I Ching são um patrimônio fundamental de toda a cultura chinesa, em todos os seus aspectos, da arte popular à filosofia mística. Hoje em dia com a popularização do Feng-Shui no ocidente vemos Pa Kuas – a roda dos 8 trigramas do I Ching – à venda em todas as lojas de artigos esotéricos. Porque? Porque o entendimento dos trigramas está na própria base do Feng-Shui, tal como tem um papel basilar nos princípios da Medicina chinesa: por isso nenhum chinês bem informado sobre a sua cultura tradicional reduziria o significado do I Ching a um livro ou a um oráculo.

Os taoístas quando falam do I Ching falam dos trigramas, dos hexagramas e das suas mutações enquanto a representação das transformações na natureza e na vida do homem. Através desses símbolos o taoísmo estuda os ciclos e as leis naturais manifestados no nascimento, desenvolvimento e morte das 10 mil coisas. Para mim isso é o mais importante: esse entendimento mais profundo do I Ching.


• Então os taoístas não consultam o I Ching como oráculo?

O nosso Mestre Liu Pai Lin sempre nos dizia que o uso oracular não era o fundamental, que o que vale mesmo é aprender os treinamentos de energia taoístas e praticá-los diariamente, para poder ter saúde e longa vida. Para ele mesmo a consulta oracular já nem era necessária, porque a sua prática do Sentar na Calma, a meditação taoísta, tinha se tornado tão profunda que lhe dava acesso diretamente, pela abertura do espírito, a toda informação e orientação que necessitasse. Mas alguns dos seus discípulos e clientes mais antigos chegaram a levar-lhe respostas que tinham obtido do oráculo para pedir sua ajuda na interpretação, e ele não se negava...

Os treinamentos de energia e a forma do Tai Chi que o Mestre nos ensinou são uma verdadeira vivência dos princípios do I Ching, isso é o mais interessante. E conhecer esses princípios das I, as Mutações, nos permite entender como e porque os treinamentos nos trazem resultados tão fantásticos. E esse entendimento nos dá mais motivação para continuar treinando, por isso o Mestre também ensinava o I Ching...


• Muita gente que se lança ao estudo do I Ching desiste porque acha muito complexa a linguagem metafórica do texto. O que você aconselharia às pessoas com essa dificuldade?

A visão do I Ching que a maioria das pessoas tem, pelo menos quando iniciam sua relação com ele, é que você precisa ler os comentários do livro – até eventualmente memorizá-los – para poder entender cada símbolo. O que eu recomendo é construir uma visão estrutural dos símbolos, o que implica possuir as chaves que permitiram aos comentaristas escrever os seus comentários.

Porque as linhas fechadas ou abertas dos trigramas e hexagramas tem o significado que tem? Seu significado não é arbitrário, mas estrutural: são símbolos que falam por si, basta ter essas chaves na mão. As linhas são as letras da linguagem das I, as Mutações. Partindo delas podemos ir desvendando as sílabas, que são os trigramas; a partir das sílabas, desvendamos as palavras, que são os hexagramas; e a partir das palavras, as frases, que são os hexagramas em mutação para outros hexagramas. Todos podem falar por si!

Na 3ª parte do texto de Richard Wilhelm – Livro Terceiro, Os Comentários – , e também na 2ª parte – Livro Segundo, O Material – , estão todas as chaves para começarmos a ganhar essa visão estrutural.


• Então é possível ler o I Ching sem precisar do texto do Livro das Mutações?

Sim, a verdade é que sim. Mas o texto tem seu valor, sua contribuição. Quando eu numa época me perguntava se devíamos aprender a prescindir do texto totalmente, o Mestre Liu comentou numa aula que o Rei Wen e o Duque de Chou – os autores dos textos mais antigos dos hexagramas – eram pessoas que conheciam muito bem as leis da natureza.

Na linguagem do Mestre, isso dava a entender claramente que eles eram Seres Iluminados taoístas, suas palavras portanto tinham um sentido profundo e mereciam ser conhecidas e respeitadas. Depois disso ele passou inclusive a dedicar um certo tempo dessas aulas a expor o texto de alguns hexagramas.


• O I Ching, na sua opinião, é um instrumento que permite a previsão do futuro? Estariam as ações do ser humano pré-destinadas, de forma imutável? Como a sabedoria chinesa entende a questão do livre-arbítrio, e como esse conceito se relaciona à prática do I Ching?

As respostas do I Ching enquanto oráculo mostram o que seja mais importante para o nosso crescimento espiritual, e isso pode incluir aspectos do futuro. Mas o foco da resposta começa por esclarecer o presente, porque sem compreendê-lo não podemos decidir nada. Mas eu também já fiz muitas consultas sobre o passado, para entender certos episódios pouco claros da minha vida, ou para pedir um balanço de alguma ação ou atitude minha; descobri que assim ganho sabedoria com meus erros.

O imutável está nas circunstâncias dadas da nossa vida, nossa margem de escolha livre está na atitude que adotamos ante elas. Segundo nossa atitude, no interior dessas circunstâncias se abrirão tais ou quais oportunidades de mutação, com tais ou quais desdobramentos, ou não se abrirão... E também segundo nossa atitude, saberemos aproveitar essas oportunidades, ou não...


• A consulta ao I Ching pode ser feita em qualquer situação? Existe uma freqüência ideal de uso? Em que condições uma pessoa poderia estar fazendo mal uso do instrumental? E nas situações onde a pessoa deseja consultar o I Ching para obter informações sobre o comportamento de uma outra – que recomendação você daria?

Quando o I Ching me encontrou eu estava com 21 anos, viajando pelo mundo em busca de mim mesmo: consultei muito, sobre tudo que me inquietava, e o Livro foi me ajudando a reconstruir minha vida totalmente, em novas bases, muito mais sábias. Quando essa fase terminou, passei anos consultando muito menos, só em algumas decisões importantes. E depois várias outras fase se seguiram... Não há regras rígidas nesse terreno.

O mau uso mais comum é consultarmos sem estar com o coração suficientemente aberto para ouvir a orientação recebida: ouvirmos só quando a mensagem agrada ao nosso eu pequeno, fazermos de conta que não entendemos quando o contraria. Consultar sobre os demais pode ser válido ou não, depende da intenção: se estamos procurando ajudar alguém, sem nenhum interesse pessoal, é nobre; mas se quisermos ganhar poder sobre a pessoa, é criminoso.


• Você tem experiência com outras abordagens oraculares? Você vê mais similaridades ou mais discrepâncias na comparação entre o I Ching e Astrologia, Tarot, Runas, Búzios, etc?

Na mesma comunidade espiritual de Nevada City, na Califórnia, onde eu conheci o I Ching, ganhei meu primeiro mapa astrológico. Comecei a dar consultas e cursos de I Ching no início de 84, e nesse mesmo ano comecei a estudar a astrologia. Hoje ela é parte integrante do meu trabalho de consultório, de orientação pessoal: o mapa natal, os trânsitos e progressões acrescentam uma outra perspectiva que aprofunda e precisa a mensagem do I Ching. As outras técnicas oraculares eu nunca estudei, mas sei que todas podem ser bem usadas ou mal usadas...


• Um dos mais perceptíveis efeitos colaterais da popularização do que tem sido chamado de movimento Nova Era é a multiplicação de métodos e caminhos esotéricos de pouca consistência, ao que tudo indica incapazes de apoiar um autêntico processo de autotransformação. Na sua opinião, o que distingue a verdadeira busca espiritual do auto-engano?

Nosso Mestre Liu dizia que para alcançar uma realização espiritual é preciso deixar para trás o nosso eu pequeno e abraçar o nosso eu verdadeiro. Deixar para trás o eu pequeno exige uma honestidade total consigo mesmo: – Quais são as minhas verdadeiras motivações, minhas metas, meus valores? São legítimos? Porque? É preciso cultivar o vazio do coração, cultivar a humildade, a compaixão e a moderação.

Os falsos caminhos são aqueles que não questionam o eu pequeno, que vai acabar reforçado: – Oh, como eu sou espiritualizado...


• Você acredita, observando a atual crise e outras que recentemente andaram ameaçando a vida no planeta Terra, ser possível imaginar a humanidade um dia trilhando o caminho do meio? Ou cada vez fica mais claro que o processo é mesmo individual, não sendo viável apostar numa saída coletiva?

Cada pessoa que aprende a serenar sua mente através do Sentar na Calma, a meditação taoísta, a harmonizar suas energias através do Tai Chi taoísta, a melhorar sua saúde adotando hábitos de vida mais naturais, mais moderados, estará naturalmente sendo mais humilde e mais compassiva, disseminando mais paz e mais amor em torno de si.

Na cidade de São Paulo a nossa Associação Tai Chi Pai Lin, sob a liderança de Jerusha Chang, está participando de um projeto da Secretaria Municipal de Saúde para introduzir vários aspectos da Medicina Tradicional Chinesa – inclusive o Tai Chi taoísta – no atendimento da população. De 2002 em diante já treinamos dezenas e dezenas de funcionários da Secretaria como multiplicadores nos bairros da cidade; essas pessoas hoje já estão ensinando gratuitamente em postos de saúde, centros comunitários, associações populares.

A experiência de transformação é individual, mas pode ser oferecida à coletividade. E nós queremos fazer a nossa parte...