energética, por onde deve subir livremente a energia da essência, residente no baixo ventre, e descer a energia do espírito, residente na cabeça; que, no entanto, nosso pescoço é estreito como um gargalo de garrafa, favorecendo o bloqueio do fluxo nesse canal e o enrijecimento da nuca; se a pessoa deixa isso acontecer, estará caminhando rapidamente para a morte, e o meu incômodo durante o treinamento indicava que isso estava acontecendo comigo — por isso era vital e urgente abraçar a prática do Tai Chi para relaxar e manter flexível aquela região do corpo.

Eu estava assustado com a intensidade da dor, fiquei ainda mais assustado com seu comentário: na manhã seguinte, às 6:15 da manhã, fui à minha primeira aula de Tai Chi na Igreja da Missão Católica Chinesa, na Vila Olímpia, onde ele ensinava. Fiquei fascinado com os movimentos leves e graciosos do Mestre, com o clima daquela reunião serena de dezenas de pessoas, com o bem-estar que a prática me trouxe: passei a freqüentar os treinos na Igreja diariamente, de segunda e domingo.

Ao longo desses 20 e tantos anos o Tai Chi Pai Lin nunca deixou de fazer parte da minha vida. Quando voltei ao México em meados do ano seguinte, para uma nova permanência de ano e meio, continuei praticando o que já sentia segurança de treinar sozinho; e lá participei no início de 88 do primeiro seminário do Mestre nesse país, o que me motivou a treinar ainda mais e aproximar-me mais da tradição do Tao.

Em meados dos anos 90, fui à Índia para uma permanência de ano e meio numa comunidade espiritual tradicional, onde fui convidado a ensinar o Tai Chi Pai Lin a um grupo de pessoas muito abertas espiritualmente, que receberam benefícios fantásticos e tiveram experiências muito profundas com as práticas do Tao: com isso finalmente senti a confiança de definir-me pela tradição taoísta como meu caminho para a realização.

Quantos problemas de saúde, inclusive alguns bem sérios, pude ir resolvendo graças ao Tai Chi! O Mestre não perdia nenhuma oportunidade de lembrar-me, como fazia com seus outros discípulos e alunos, que não deveríamos contar com a ajuda das suas receitas de chás medicinais e das massagens Tui Ná no seu Instituto, nem com a energia que nos doava generosamente ao examinar-nos ou simplesmente passar por nós nas suas aulas; sempre dizia que era preciso confiar nos treinamentos e dedicar-nos a eles com determinação, porque senão, alertava, “o Céu não vai querer continuar ajudando...”.

Parte importante da transmissão do Mestre foi a sua visão do Tai Chi como filosofia de vida. Ensinou-nos a cultivar nossa ligação com a Natureza, a trocar energias com ela, a “namorar a natureza”, como dizia; a observar seus ritmos naturais — a estação do ano e o momento do ciclo da vida vegetal, a hora do dia e a altura do sol, a aproximação da chuva, a intensidade do vento, a ocorrência de neblina no início da manhã —, e a “emprestar” ou “roubar” as energias naturais através dos treinamentos.

A filosofia que o Mestre Liu se esforçou para transmitir-nos abarcou também uma postura da mais alta elevação ante a vida, ante nós mesmos, ante nossos companheiros e companheiras de treinamento, ante todas as pessoas. Ele, que sabia ser duríssimo, implacável, impiedoso mesmo, quando precisava corrigir-nos alguma atitude equivocada ou alertar-nos para alguma falha de caráter, era no seu trato diário uma pessoa de grande doçura e delicadeza, irradiando sempre contentamento, simplicidade, jovialidade e serenidade. Foi o exemplo do Ser Verdadeiro, do Ser Iluminado do Grande Tao, alguém que dedicou o melhor da sua vida à formação de novas sementes taoístas — como ele gostava de chamar seus discípulos e alunos.


Mestre Liu, num dos seus últimos Seminários de Formação
em São Roque, SP, entregando-me o Certificado.
treinamentos internos de energia, mostrando seus alicerces na filosofia do Tao, e a meditação segundo a tradição taoísta — ele nos conduziu num treinamento em que levávamos a energia da cabeça para o cóccix, percorrendo a coluna, e de volta para a cabeça.

Quando a energia desceu ao meu pescoço senti uma dor lancinante, meio assustadora, que me motivou a compartilhar o que tinha ocorrido. Mestre Liu comentou que a nuca é um ponto crucial de passagem
Conheci o Mestre Liu Pai Lin no início de 1986, quando o procurei para uma consulta no seu Instituto Pai Lin de Ciência e Cultura Oriental. Duas pessoas o recomendaram como médico tradicional chinês do mais alto nível; uma terceira pessoa tinha feito um curso de I Ching com ele alguns anos antes, e quando soube que eu estava dando consultas e cursos sobre o assunto me disse: — Se você quer trabalhar com o I Ching você tem que conhecer o Mestre Liu...

Poucos dias depois da consulta fui assistir uma das suas aulas de Tao In, porque sua esposa, Dona Geni, tinha me dito que ele sempre falava muito do I Ching nessas ocasiões. Durante a aula — em que ensinava o Chi Kung, os